terça-feira, janeiro 3

A cidade é um vão

Algumas imagens permeiam nossas mentes, enquanto outras nos acompanham superando tempo e espaço. O fato é que, a despeito da idéia do pão e circo, este último marca o fugaz momento de nossa infância: o riso em coro de crianças mistura-se a medo, aplausos e curiosidade. É a magia do circo no entreato das mágicas palavras de um palhaço.
Numa cidade afastada dos grandes centros, em meio a grandes plantações de soja, milho e sorgo, adicionada a formas ainda escusas de trabalho escravo, um acontecimento inusitado marcou minha hospedagem por ali: a chegada de um circo. Seu nome: Chapadão do Sul-MS, 300 km de Campo Grande, com cerca de 20 mil habitantes; lugar de minha mãe, irmã e minhas férias.
A notícia pode não guardar nenhuma novidade, em si, para o dileto leitor, todavia, não seja este o ponto. Na verdade, a cidade é daquelas poucas em que ainda se deixa o carro aberto em logradouro público, dorme-se com a janela aberta, há casas sem portão, carros sem seguro, toma-se chimarrão e tereré nos quintais e compra-se "em confiança" (leva-se a mercadoria para casa e depois retorna-se à loja para pagar). Não há semáforos, é possível tirar a roupa do varal antes que a chuva chegue: há uma paisagem aberta e rara no horizonte de sua chapada. Sua economia anda à margem da especulação e sobre suas calçadas não andam mendigos; Suas putas são discretas, portanto não se sabe seu valor.
Decerto que a chegada de um circo deveria ser sinônimo de entretenimento e arte. Não o é.
Sua aparição movimenta a cidade tal qual as ameaçadas cidades medievais: forma-se uma "fortaleza" em seu interior. Motivo: os postulantes da alegria são também espécies de "trombadinhas", realizam pequenos furtos. Perplexa, seu brilho silencia como um som; mistura-se curiosidade ao medo, desta vez de verdade. Os olhos ficam espreitados, surge uma outra cidade na cidade, agora a cidade é um vão.

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