sábado, maio 31
As pedras da tradição
De forma simplificada, o pano de fundo é o seguinte, uma mulher comete adultério e está prestes a ser apedrejada por um grupo de pessoas, no momento em que o Cristo aparece e os indaga: "quem não tiver pecado, atire a primeira pedra".
Para pensar tal acontecimento e, ao mesmo tempo, aplicá-lo aos nossos dias devemos visualizá-lo sobre o seguinte tripé: a lei, a tradição e o humano.
Segundo a lei mosaica toda mulher pega em adultério deveria ser levada a público e, sem escrutínio social, ser apedrejada até a morte. Daí não haver, do ponto de vista legal, nenhum "erro" por parte daquele grupo social de então.
Embora teólogos e exegetas discorram sobre o texto de forma a enfatizar a atitude do Cristo em relação ao perdão oferecido à indefesa mulher adúltera, permito-me pensar que este não seja o ponto. A meu ver a ênfase deve discorrer não pela "vítima" e seu momento de salvaguarda, mas, pelo algoz. Ou seja, quem são aqueles homens e mulheres que, mesmo com o peso da tradição que os obriga a cumprir a lei, tomam as pedras e desistem de atirá-las? A resposta talvez seja a seguinte: pessoas que prescindiram de suas tradições (representadas pelas pedras) a favor da vida, mais precisamente, do humano.
A defesa eclesiástica da "defesa" pela vida, não deveria ser trocada pela defesa das escolhas?
O humano transcende a vida e a morte. Haja vista, os casos em que a escolha pela morte é uma forma de preservar "a vida". Nesse sentido nem o Estado, nem a Igreja são donos de um querer supremo, podendo sim, defendê-los, protegê-los.
Permite-se, por parte do Cristo, refletir sobre o ato da escolha como elemento supremo, o que só é possível por um homem humano, demasiadamente humano.
terça-feira, maio 6
Além do caos
Resolveu-se, de uns tempos pra cá, dar-se a cara à tapa, literal e estranhamente falando. Primeiro porque ninguém em sã consciência o faria, segundo, salvo a metáfora a que remete a expressão, nenhum cristão anda oferecendo a face a quem quer que seja. Por outro lado o tapa não está classificado num rol preocupante de violência que nos obrigue a maiores reflexões. Um caso particular, entretanto, me chamou a atenção nos últimos dias.
Um jovem descrevia-me o medo e a tensão de viver um terrível paradoxo: como sobreviver numa sociedade onde homens revestidos de poderes militares e de deveres de proteção social são temidos por ameaçarem esta mesma sociedade? Neste caso, o rapaz descrevia a dura realidade de ter de viver entre a ameaça de ser atingido pelos desdobramentos do tráfico que o avizinha, e a infelicidade de ser confundido rotineiramente com esses laranjas (igualmente vítimas desse sistema). Sofrendo ameaças, perseguições e agressões gratuitas, acuado e sendo constrangido a viver num anonimato que lhe traga “conforto”, o “moleque” procura uma “zona de conforto” no exíguo e quase inexistente espaço de convivência (ou conivência) dos seres. A lógica é a seguinte: Na dúvida, todos apanham!
Tem-se falado ultimamente em se repensar o sentido de proteção da pessoa, nos espaços internos ou externos à família, sobretudo na aplicação do Estado de Direito. Deveríamos, ainda neste ensejo, repensar o verdadeiro sentido das instituições a que pertencemos todos, observados os valores históricos intrínsecos e imprescindíveis desse processo. Tem-se que, a partir do confronto entre o que pensamos e a dialética dos sentidos, pouco se sobre além do caos.